O descomeço


"Bebendo vinho, quebrando as taças, fudendo por toda a casa". Esse era o cenário que queria pra ontem quando comprei um vinho tinto barato e cozinhei um risoto só pra mim. Foi preciso quase meia garrafa e uma foto tua seguida de um sorriso bobo pra entender que sim, me apaixonei. Eu neguei por todos os dias em que nos desejamos mais que tudo nesse último mês, neguei porque sei que não pode, sei que não vai ser. Meu coração sempre foi racional demais pra acreditar nas promessas de carinho na madrugada, mas ele anda muito só e viu em você uma oportunidade de se abrir de novo. Coração bobo, sorriso também, já não há mais como negar a situação em que me meti.
Você tem cheiro de erro e isso me fez te querer ainda mais. Quando seu olhar desobriu o meu foi "jogo baixo", desde então quem tem fugido sou eu, afinal abrir os olhos e ver que você me olhava foi golpe fatal. Cada beijo teu me incendeia, quando vejo já tirei a roupa, pouco importa o lugar. Mas deveria. Ou melhor, não deveria, mas não controlamos os sentimentos. Nada disso pode ser verdade, pessoa transparente não sabe brincar de esconder e isso não é brincadeira. Muita coisa em jogo, coisas que eu não seria capaz de lhe proporcionar. Por isso, ainda que me doa, eu entendo seus motivos e não vejo outra solução a não ser me retirar. Vai ser difícil como todo início de fim, é muito pior terminar o que não teve a chance de começar. Mas nós fomos fim, desde o início. Minto se digo que me arrependo, mas não o beijaria de novo se soubesse como seria perfeito esse encaixe difícil de largar.

Nao sinto sua falta


Hoje vi uma frase que dizia: "o telefonema de quem poderia te trazer felicidade agora?" Parei pra pensar que nao havia ninguém de quem eu esperasse qualquer manifestação. Por mais que seja bom ter um tempo pra si, não sentir nada por ninguém é pior do que sentir falta. O vazio é bem maior e não há esperança.

Refletindo melhor conclui que sinto falta do sentir, não de alguém específico. Não teria porque mentir, mas para me explicar melhor, sinto falta do que eu sentia quando estava contigo, ainda que não tenha feito por mim 1/3 do que eu merecia.

Falo de horas simples que vivemos como se fossem anos. Totalmente nua, em paz, ouvindo chet faker após uma boa transa. Consigo sentir seu cheiro depois de um banho gostoso e seu sorriso de quem me queria muito. Ah sinto sim, falta dos olhares, das mãos me buscando a noite com frio, do café na cama, dos momentos infinitos que me faziam esquecer o mundo.

Não sinto sua falta.

Sinto falta do sentimento que você nutriu, mas já não existe. Não foi o mesmo, nunca é. Sinto falta de como conversávamos sem trocar uma palavra, com olhares tristes e profundos, seguido do sexo mais apaixonado que ja fiz.

Mas juro, não é de você que sinto falta. Aliás de tudo, é a única "coisa" que não tenho saudade. Você só me lembra indecisão e ansiedade e fujo disso mesmo escrevendo sobre o que me fez sentir quase todos os meses.

A verdade é que me sinto só, assim como estava quando você me encontrou. Meu coração tem pedido pra amar novamente, mas lembro que as histórias não são feitas só de beijos quentes, indie e café na cama, acabo desistindo por puro medo de viver.

Me tornei covarde assim como você, logo eu que sempre disse não ter medo de amar. Agora entendo seu medo ao me ver transbordar. Quando estamos no raso ver uma onda é assustador, eu também fugiria, eu tenho fugido (de mim, deles, do que senti, do que sinto).

Eu não sinto sua falta, mas morro de vontade de sentir o coração acelerado novamente, como ficava quando você me ligava pedindo desculpas porque eu odeio telefone.

agora



"se eu pudesse te falar que nem o mar pôde levar o que você deixou em mim" assim começa a música da Jade Baraldo que eu não canso de ouvir e pensar que sim: Quero ser preenchida por todas as pessoas que passam por mim! Quero você, ele, ela, nós juntos aqui dentro, uma grande confusão que dá origem a um eu mais completo (ou deveria).

e bem que tenho tentado. É o recorde de tempo sem me apaixonar, mas tô fazendo tudo errado e vou acabar machucando alguém. Acordo pensando que estou certa em viver cada segundo do meu presente livre e me deito culpada por não saber o que quero ou por saber que quero demais o que não deveria.

O meu olhar também me trai, sim eu sei, ele adora provocar. E eu atraio gente maravilhosa, com conversa que incendeia não sou de deixar passar e te juro, meu corpo está aqui mas minha alma eu já não sei, anda perdida, vagando só em busca de um prazer menos imediato?

eu adoro quando me olham fundo e falam da minha personalidade com tesão, do mesmo jeito sobre meu corpo, meu beijo, meu desejo quase que frequente. Mas nada disso é suficiente, e ainda que eu te mande embora a noite eu sinto falta de um chamego sem pressa, sem porquê, sem culpa

cansei de demonstrar que valho a pena e por mais que saibam e reconheçam a conexão não acontece mais eu não sei se me fechei demais ou se me abri e não consigo mais fugir dessa liberdade que sufoca.

Por mais que eu tente olhar alguém como mesmo desejo da última vez não é tão quente. Por mais que eu esteja de fato no agora sem expectativas, não está completo. Só sei que estou aqui, presente, vivendo, sozinha, com dois, com três, com ninguém.

Rascunho



Na pré-escola é proibido usar caneta porque você está aprendendo a escrever, com certeza vai errar e por isso usa lápis e borracha. Com o tempo você já sabe o suficiente para se arriscar na tinta e no auge de sua adolescência, cheio de certezas, começa a escrever em seu caderno com canetas de várias cores, ainda que as vezes recorra ao corretivo, na esperança de esconder algum errinho e manter o caderno impecável. Mas o certo é aprender a ser perfeito, porque no vestibular é proibido usar corretivo e se tiver muita rasura alguém (que não erra) vai tomar sua vaga. Para não esquecer o quão inseguro somos, sempre utilizamos uma folha de rascunho e só então transcrevemos para a folha oficial. Crescemos pensando que temos que ser perfeitos em tudo, não podemos errar, o erro é feio. Tem gente que pede até 3 folhas, começa a escrever, não gostou rabisca tudo, próxima folha. Droga de rasura, poderia ter usado palavras mais rebuscadas, próxima folha. E assim a essência do texto vai se perdendo nas 4 ou 5 folhas que foram jogadas fora. 

Acontece que o erro é bonito sim. Não devíamos ser ensinados a ter medo de errar, arriscar, chorar, afinal não é esse o único caminho para quem deseja viver? Repare que eu disse viver, porque a maioria de nós apenas segue uma rotina pré-estabelecida e qualquer mudança, próxima folha. Veja bem, a vida não te dá folhas de rascunho. Claro que você terá outras chances, mas tudo será escrito no mesmo papel, não há tempo para transcrever. Por isso pegue sua caneta bic, ainda que esteja falhando, e comece a escrever agora mesmo. Escreva o que vier, errou? Passa um traço e continua, isso vai te tornar mais cauteloso, mas não há nada mais bonito que a simplicidade de um rascunho, onde as ideias tomam forma e amadurecem, em meio a erros e acertos. 

E não é assim que a vida tem que ser? Uma crônica sem moral, uma dissertação que não necessariamente terá início meio e fim. As melhores ideias me surgem de madrugada, a famosa horinha de descuido de Guimarães Rosa. Eu escrevo no bloco de notas do celular tonta de sono, mas quando vou transcrever é tarde, já perdi a essência. O sentimento muda a cada segundo a vida é o próprio rascunho. Acostumar-se com a impermanência, alegrar o coração com as novas experiências. Escrever como nas antigas máquinas, a folha vai e volta e nos continuamos palavra por palavra, até construir uma história, com vários erros que no fim revemos orgulhosos pelo caminho que percorremos pra chegar aqui no presente, que também é futuro, sempre impermanente, como as células que se renovam a cada segundo e nem por isso sou menos eu.

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