Prazer, Eu.



"Você não o amava, amava a relação, amava o fato de ter algo em que pudesse se prender. E você? Onde estava?"

Não vou negar que doeu. Não eram nem 10 horas da manhã e eu havia descoberto um buraco enorme em mim, construído no decorrer dos anos, POR MIM. Sim, em caixa alta, porque devemos para de culpar o outro e olhar pra dentro. Naquele momento eu me senti uma luz, que refletia por toda a sala, finalmente liberta, finalmente EU estava ali.

Veja bem, não há nada de errado em se preocupar com o outro, minha concepção de que o amor ao próximo é a solução, não mudou. Mas para que isso ocorra, devemos nos amar primeiro e eu sequer sabia da minha existência. Sempre fui a cheia de dedos e opiniões, a durona, que não se deixa levar, isso na teoria: Dar conselhos é fácil, difícil colocá-los em prática.

Eu me sabotei. O relacionamento abusivo era Eu comigo mesma. Peço licença para abusar do pleonasmo, é que essa Eu desconhecida a todo momento traz coisas novas para mim. Mas a sensação ao libertar a pobre Eu, presa por 22 anos foi inexplicável, ou melhor, podemos falar em meses de terapia economizados, um fígado agradecido, episódios explicados. 

Qual o seu sonho? O que te move?
Foi a primeira pergunta, no meu primeiro encontro depois de 5 anos de invisibilidade total. E agora, o que responder? Se disser que não tenho sonhos vou parecer desinteressante. "Tenho muitos, não sei definir". Uma saída rápida, para o que seria o início de um turbilhão de pensamentos. Por que eu não tenho sonhos? Uma eu (ainda minúscula) desarmada.

Ainda sem resposta, insistir no mesmo erro me pareceu mais fácil. Sabotei-me novamente por 4 meses e de repente me vi sozinha, pensando o porquê de não ter sido suficiente naquela relação. Ora, Eu nem mesmo estava ali, como ser suficiente? Não estou drogada, posso explicar.

 "Eu, eu quero grudar em você. Eu, eu quero me bordar em você. Quero virar sua pele. Quero fazer uma capa. Quero tirar sua roupa"

E era assim, no ritmo de sambinha bom que eu chegava, uma boa companheira (ninguém negou) que no entanto cometia homicídios ao se apaixonar. Matava aquilo que tinha de melhor. Eu. Homicídio sim, porque não havia consciência do que estava fazendo, de quem estava matando, não cabendo falar em suicídio.

Se antes livre, lendo, dançando, cantando. Depois observando, aprendendo, acatando. Nesse mar de gerundios, não via o Eu se perdendo. Não é o mesmo que ser submissa, isso afirmo que nunca fui. Eu me anulava, como uma linda trufa sem recheio. E não, eu não sou sem conteúdo. Leio muito, MUITO MESMO, ouço muito, falo razoavelmente bem, tenho gosto em aprender e ensinar. Mas quando você não se ama nada do que faz parece bom e então você busca no outro o que quer pra si. ALERTA DE CILADA. Era aqui que EU se transformava em eu.

 "Você é linda, inteligente, companheira, engraçada, eu sou um homem de sorte"

eu ouvi isso algumas vezes! Eu não sei dizer se acreditava, mas é gostoso de ouvir. O estranho é que depois de ouvir isso eles se vão, seja o carinha que fiquei algumas vezes sem pretensão, seja um namorado. De fato eles podem ter se apaixonado por uma mulher com tais qualidades, mas depois de um tempo de convivência Eu me anulava em prol da substância deles. A mulher apaixonante ia embora, dando lugar a um espelho e de repente eles iam embora porque Eu não estava mais ali. Compreensível...e horrível para uma feminista admitir, doeu, muito! Mas é a verdade. Lógico que não foi a única justificativa de tudo o que deu errado, ou que deu certo e acabou, mas contribuiu e muito para o meu contínuo desgaste emocional.

Quantas vezes me peguei pesquisando sobre x assunto para ajudar tal pessoa, ou me sentir pertencida àquele mundo. Sempre tentando agradar, em busca de um sonho que não era meu, nunca me pertenceu mas eu o acolhia como se fosse. Uma abusividade toda para chamar de minha, autossabotagem que fazia me sentir perdida onde quer que estivesse, independente da companhia, do estado de espírito, de tudo. Nunca o clichê "não é você, SOU EU", me caiu tão bem, ainda que eu tenha consciência de que não sou culpada por todo o conjunto, de fato ERA EU, sendo você. Pesado. Imagina anos de autodestruição sem saber o motivo? E o pior: descobrir que é o motivo. A parte boa é que só depende de mim (ou do Eu) seguir reaprendendo a Ser. Como é bom não ser depender de ninguém!

 PARTE II

Eu ainda estou descobrindo.




Desmonta, mas não desmancha




Os últimos meses foram conturbados, em todos os campos. Quando penso que posso subir porque cheguei ao fundo do poço, descubro que é possível afundar mais. Levantar da cama é a primeira vitória do dia e deitar nela sabendo que fiz tudo o que podia devia é uma das poucas coisas que me trazem calma. Los hermanos me ensinou que a solidão deixa o coração nesse leva e traz, mas eu já não sei mais o que quero trazer. Os últimos sentimentos que abriguei me feriram, amizades frágeis, desamores, vazios e a sensação de não ser boa o suficiente. A pressão de final de curso me impede de agir como no ano passado, nada sóbria, o maior tempo possível. Mas a vontade de fugir é grande, até porque qualquer caminho é certo quando você não sabe para onde ir. Nunca fui positiva, ou a garota mais bonita, boletim azul não faz fama, o remédio me faz sorrir mas não serve de nada quando meu olhar não acompanha. Sem sonhos, sem perspectivas, pareço amarga demais pra quem tem uma vida inteira pela frente, mas já não vejo onde me encaixo nela, sou uma peça errada num quebra-cabeça cheio de peças certas. Só sigo sabendo que amanhã tenho que arcar com novas obrigações, manter a postura certa, chorar sem me borrar, menina para de reclamar! Desmontar, mas nunca desmanchar. Não tenho tempo pra isso, imagina só se perco o metrô das 17, o próximo estará lotado e eu não entro. 



Tempestades




Grandes tempestades mesmo depois de acabarem sempre deixam rastros. Nos últimos dias o mundo esta numa tempestade que parece não ter fim, parece que de repente me toquei de quão ruim o mundo pode ser. E desde então descobri coisas sobre mim mesma que outrora não me caberiam.

Brasil,ame-o ou deixe-o. Se eu pudesse deixava. Tanta maldade,tanta ganância, tanta corrupção. O cenário político e social me assusta. Os cientistas políticos facebookianos também, agora os amigos (amigos?) que postam #bolsonaro2018 #bolsomito me assustam ainda mais.

Nunca fui fã de política, sempre preferi me abster dessas discussões, afinal não tenho muito conhecimento acadêmico para tal. Sempre gostei de história ( não que eu saiba muita coisa) e vejo claramente ela sendo escrita. Mesmo que em linhas tortas e sendo narrada por uma elite global nada imparcial. 

Estamos escrevendo parte da história que meus filhos ou netos estudarão para passar no vestibular. Aliás, seus filhos e netos, nos últimos dias percebi que não quero tê-los. O mundo é ruim. Já pensou se nasce menina então? O mundo não é bom,e o mundo é pior ainda para as mulheres.

Inclusive deixo aqui o meu recado : Homens, vocês sabiam que assobiar,buzinar, chamar uma mulher de "gostosa" "delícia" no meio da rua não te fazem mais homens? Testem! 

Tá tendo guerra na Síria, ataques em Manchester, presidente ilegítimo ganhando mesadinha, preconceito contra nordestino sendo feito e gravado em pleno planalto central, edifícios sendo demolidos com dependente químico dentro e ninguém faz absolutamente nada.

Que horas chegamos a esse ponto? Que horas cheguei a esse ponto?

Em qual momento passamos a ser tão desumanos ao ponto de likes serem mais importantes do que uma vida,seguidores serem mais importantes que amizades verdadeiras, "opiniões" serem única e exclusivamente motivos para textões no facebook. Em que momento fast amores se tornaram mais interessantes do que relacionamentos sólidos? O que eu tava fazendo que não percebi que Black Mirror era muito melhor que a realidade?

Como diria o lendário Chorão: "Que mundo é esse que ninguém entende um sonho? Que mundo é esse que ninguém sabe mais amar?"

Não disse que grandes tempestades deixam rastros? E deixaram, em mim. 

Lhes apresento meu novo eu : jovem de 20 e poucos anos,mulher,negra, nordestina, pseudo arquiteta, votou no PT, espírita, que não quer ter filhos, e a nova descrente do mundo. 

Boa noite. Ou seria apenas noite?





Marcas e feridas


Quando você machuca alguma parte do corpo o processo de recuperação pode parecer lento, mas é evidente. Você tem certeza que a coloração diferente do roxo ou a dor que apareceu em outro local faz parte da cura e espera pacientemente por isso. 

Quando você sofre por amor, também passa por estágios, mas nunca tem certeza aonde vai chegar. A ansiedade te consome e tudo parece mais devagar. Na verdade a sensação é de que levou um soco no estômago e ainda assim não consegue vomitar os sentimentos bons que ficaram e insistem em morar na minha cabeça, lembrando tudo o que não foi, tudo o que poderia ter sido. Eu queria um remédio que me deixasse com raiva depois de tudo o que eu ouvi, para poder dar início ao meu tratamento, Queria ao menos aniquilar essa esperança, até porque tanto faz voltar ou ir, ainda que só haja a segunda opção.

Falar em desproporção de sentimentos é normal, o amor não chega ao mesmo tempo para os dois, por isso a relação pode parecer desigual. Mas não posso permanecer numa relação que você entende estar fadada ao fim. Onde só um sabe que é exatamente ali que quer estar, ignorando os contratempos, agora conhecidos por privações, que poderiam gerar insegurança. Agora o que resta é a sensação de não ser boa o suficiente para fazê-lo ficar.

Eu não tenho a capacidade de acordar me sentindo livre e desimpedida, fingindo que nada aconteceu. Me parecia confortável, quente, seguro, e ainda que não tenha muitas provas materiais ou lembranças concretas, posso afirmar que os meus sentimentos cresceram, amadureceram, floriram, enquanto o seus caíram e você fingiu não ver. O roxo está mudando de cor, mas a cura não parece próxima. Talvez porque eu saiba que não é a última vez que vou enfrentar esse processo. Sei também que ele não é fácil, parece impossível apagar essas palavras que torturam meu inconsciente, o machucando. 

Eu sei, você também deve estar confuso e perdido. Mas por mais que você diga que onde tem amor não tem dor, acredite, amar sozinho dói. Um dia você vai descobrir isso, sem vacina, sem remédio, sem alguém para lhe dizer que vai ficar tudo bem. Você vai finalmente cair, depois de tanto cambalear. Eu bem que tentei me apoiar em você para dividirmos as forças, mas a minha dose não foi o suficiente. Eu deveria saber disso, você nunca foi fã de remédios, talvez prefira doses letais. 

Você foi a casquinha da minha última ferida e eu cuidei muito bem da cicatrização. Quando eu finalmente melhorei, você se foi, deixando tudo aberto novamente. Apesar da dor familiar, eu ainda não entendo o porquê dessa atitude repentina, quando tudo ia tão bem. A verdade é que a gente nunca sabe como o outro se sente, por mais que se esforce para isso, as vezes nem nós sabemos. Só seguimos com a certeza de que correr riscos pode trazer novas feridas que um dia serão apenas marcas que contam histórias

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